Pequenas fugas

Depois de constatado o atraso, só resta correr atrás do prejuízo. Vai pegar o primeiro ônibus que passar, mesmo lotado. Vai pisar no pé de alguém, pedir desculpa, se espremer atrás de outros trabalhadores do Brasil, xingar em pensamento o motorista pela curva feita em alta velocidade que quase a derrubou em cima de um pivete. Vai andar depressa do ponto até o trabalho, passar o cartão na catraca e, para colaborar, o detector vai impedi-la de passar. Vai ter de esperar dois minutos até que esse sistema de entrada, tosco e do tempo da pedra, permita que ela entre no prédio. Vai chamar o elevador e todos os quatro estarão no último andar. Vai entrar na sala e olhar com aquela cara de “foi mal” para o chefe que a espreita da sua mesa.

 

Um tantinho de mal humor a persegue desde cedo e o atraso e a atrapalhação toda que encontrou no caminho até a chegada ao escritório deixaram-na ainda mais enfurecida. Porém sua fúria é menos resultado da raiva dos acontecimentos do dia e mais fruto de uma melancolia morna, que vem há dias crescendo no peito.

 

Tem vontade de mudar, mas não sabe como. Tem vontade de não ir trabalhar, mas se não o fizer: rua! E quem pagará as contas? Chega de depender dos velhos. Tem vontade de terminar o namoro, mas tem preguiça de sofrer por ficar sozinha. Prefere arrastar o relacionamento até onde der, ou até onde ele deixar. Tem vontade de viver num outro corpo, com menos celulite, menos estria, menos quilos extras. Mas, por hora, só lhe cabe a vontade.

 

Hora do almoço e todos saem para comer. Prefere ficar no escritório para não ter de fazer cara de contente para os colegas de trabalho. Mas um dia terá de ir, só para disfarçar. Prefere deixar para pensar nisso depois. Como também prefere deixar para pensar em tudo depois. Agora quer só curtir as vontades.

 

Hora de ir embora. Faz hora para não correr o risco de ter companhia até boa parte do caminho de volta. Quer ir embora sozinha, para poder ler em paz. Sempre que alguém a acompanha tem de ficar ouvindo churumelas pelo caminho todo. Prefere os livros. Sempre quietos, sempre disponíveis para algum leitor.

 

Hora de deitar. A melhor hora do dia! Só deitada na cama consegue pensar ordenadamente em seus desejos. Organiza um, dois, cinco...pega no sono. Amanhã vai tentar de novo. Agora, já sonha outras vontades.



Escrito por Kel às 17:07
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