Grisalhos

Paixonite aguda. Lembro de ter ouvido o termo há anos, e achei o máximo. E é. Era a classificação perfeita para aquele estado tão genuinamente adolescente em que nos apaixonamos perdidamente por alguém e esta paixão ardente não dura mais que três ou quatro dias. Mais do que isso era bobagem. Afinal, sempre havia outra paixão na esteira das novidades nesta idade.

 

“É mais forte do que eu”, tentava se explicar, em vão, para as amigas. Verônica já era um mulherão e ainda trazia consigo este hábito adolescente de se entregar cegamente a uma paixão que não durava mais do que dois ou três orgasmos. Por mais que ela tentasse se justificar, as amigas sabiam que ela não mudaria. Já tiveram provas mais do que suficientes disto. Como aquela vez em que Verônica conheceu o Márcio, o famoso cara perfeito (trabalho, grana, carro do ano, carinhoso, expert em sexo) e depois de uma semana de tórridas noites de amor ela virou para ele e disse: não dá mais. O rapaz, é claro, ficou viajando, tentando entender o porquê da declaração, vinda justamente depois de uma sessão de malabarismos sexuais como só ambos sabiam proporcionar. Ele tinha certeza de ter encontrado a mulher perfeita, aquela que estava sempre pronta para ele, enquanto as outras o tachavam de maníaco sexual. Cogitou até pedi-la em casamento, mas ela foi mais rápida e terminou tudo sem dar-lhe uma explicação plausível. “Você é ótimo de cama, mas não faz meu tipo. Quero encontrar alguém que tenha algo mais”. Arrasado, nem voltou a ligar para a loura. Mas ficou pensando o que seria este “algo mais”.

 

Na noite em que Verônica dizia às amigas que a paixonite era algo que não conseguia conter, acabava de entrar no “Monte de Vênus”, um bar para pessoas acima dos 30 e abaixo dos 60, um grisalho charmosão. As amigas entreolharam-se, antevendo o que ia acontecer dali pra frente.

 

Verônica levantou-se da mesa, jogou o cabelo pro lado (típica arma feminina de sedução), estufou o peito e caminhou até o bar. No trajeto, foi atacada por olhares famintos dos solteirões de plantão, inclusive do grisalho. Chegou ao bar, pediu uma bebida à base de champagne que vinha com uma cereja de enfeite. Ao dar a comanda ao barman, ouviu: “faço questão de fazer esta gentileza”. Era o grisalho entrando em ação. Quando o drink foi servido, Verônica pegou a cereja, prendeu-a levemente entre os lábios, fuzilou seu alvo de vasta cabeleira cinza e deixou com a fruta deslizasse para a boca, mordendo-a vagarosamente enquanto Walter sentia como se ela estivesse mastigando seu coração. Entre uma bebericada e outra trocaram frases desconexas e terminaram a noite no flat dele.

 

Manhã seguinte, no escritório: “Vocês sabem que eu tenho uma queda por grisalhos. Mas esta foi a última vez, entenderam?”. Todas riram da afirmação e de quando Verônica contou que ele tinha o pinto torto. Sabiam que ela sempre detonava os caras na manhã seguinte, mas se fossem grisalhos ela daria a eles uma segunda chance. E só. Paixonites não passavam de segundo ou terceiro orgasmo. Mas eram inevitáveis.



Escrito por Kel às 12:30
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Amores possíveis

Leonardo. Louro, alto, 35 anos, porte atlético, engenheiro civil bem sucedido. Morador de um “senhor” apartamento no Morumbi. Solteiro. Sofre de SPP – Síndrome da Perseguida Perdida. Não lhe dá sossego a idéia de que, enquanto trabalha ou dorme, deixa de traçar algumas por aí. Por isto, sua vida é uma incessante procura por mais e mais...perseguidas.

E como toda estorinha esdrúchula, dessas que acontecem uma vez na vida e outra na morte, Leo sai de casa. Está sem pique para a paquera mas quer muito sentir seu membro mais querido aconchegado entre as pernas de uma bela mulher. Vai até uma dessas casas de tolerância suuuper famosas da cidade. Encontra uma das mais magníficas representantes do sexo feminino. “Oi benzinho, me paga uma bebida?”, pergunta Sthepanie. “Com ‘h’ depois do ‘t’ e ‘ie’ no final”, explica a belezura. Dois drinques depois estão na cama. No sofá, na mesinha de canto, na parede, no chão, no banheiro... “Chega, já deu pra mim!”, expeliu o engenheiro. Quando a morena se preparava para colocar a roupa, um contratempo. “Vamos embora desse lugar. Sou bem sucedido, posso te dar tudo o que você quiser. Seja minha, só minha”. Nem parou pra pensar. “Não, benzinho, o programa não inclui contrato vitalício de exclusividade”. Mas não se dando por vencido, voltou à casa na noite seguinte munido de um esboço de contrato pré-nupcial. Ah, só o amor constrói casamentos felizes...

 

 

Amores possíveis II

No metrô, vinha consumindo-se do ódio. “Pulha, miserável, cafajeste. Queria que aquele filho de uma boa puta perdesse o pau!”. E a gente nem podia tirar a razão da Verônica, uma vez que a moça foi com a maior boa vontade fazer uma surpresa ao noivo e o pegou comendo outra na cama que seria dela a poucos meses. E mais: com o infeliz justificando-se com a estória de que tudo não passava de uma “despedidinha de solteiro”. “Ordinário!”, gritou, de repente, esquecendo-se de que estava em um meio de transporte público. “São todos iguais, minha filha”, corroborou uma bichinha sentada ao seu lado. Verônica viu o moço e sentiu uma pena por ele ser gay. Se não fosse seria capaz de sair com ele dali e ir direto pro primeiro motel que encontrasse. “Não sou gay, sou ‘entendido’”, revelou Gilberto ao perceber que ela o olhava com ares de comiseração. Saltaram na mesma estação e pouco depois estavam no Bacantes, um hotel muito do fuleiro nas imediações da Praça da Salvação. Depois dessa experiência, Verônica continuou encontrando-se com Gil. De vez em quando, para agradá-la, o rapazola levava algum amigo bonitão. E viveram felizes...ela, ele, e os outros.

 

Amores possíveis III

-     Mas isso não tem cabimento!!!

-     Ou você topa, ou a gente se separa agora e eu juro que você nunca mais bota os olhos em mim!

-     Mas Mirtes, eu não sou boiola!

-     E quem te disse isso?

-     Ora, não me venha com esta! Só um boiola toparia isso que você está propondo.

-     É topar ou adeus...

-     O que é, meu Deus, que eu não faço por essa mulher?

No final das contas o namoro até melhorou. Sair da rotina é sempre bom. E além do mais, um baby-dollzinho não deixa alguém mais ou menos macho, né, não? O problema foi convencer a Mirtes de que o Murilo não era manequim de lingerie pra vida toda.

Escrito por Kel às 14:19
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