Lembranças de mamãe

A lembrança mais remota que Melissa tem da infância é também a mais traumática. Acostumada a receber todas as manhãs a deliciosa mamadeira de leite quente com açúcar, numa bela manhã, a mamadeira falhou. Melissa, ainda com 5 aninhos, achou que a babá estava atarefada com algo mas que não se demoraria. Espero um pouco mais no berço e só então levantou a cabecinha para ver a cozinha, que ficava em frente ao quarto dos pais, onde dormia, e viu a dona Lindinalva lá, lavando a louça calmamente. Perguntou à babá pela mamadeira, e ela lhe disse que daquele dia em diante nada mais de mamadeira. Contrariada, Melissa levantou-se e foi até lá, com certo esforço para sair sozinha do berço. Chegou na cozinha e encontrou a mesa do café da manhã posta. Lindinalva a fez sentar-se e apresentou Melissa ao copinho de plástico com canudo embutido. Fez bico, ameaçou chorar, mas nada demoveu a boa senhora de seu intento. A criança tomou o leite, que desceu bem quadrado, e comeu um pedaço de pão. Queria ter alguém com quem reclamar, mas o irmão ainda dormia e a mãe...estava trabalhando. O pai, justo naquela manhã, também.

As outras lembranças desta época Melissa também guarda com certas ressalvas. Como era enfermeiro, o pai, seu Severino, trabalhava em turnos. Então virava e mexia ele conseguia estar presente no café ou no almoço dos pequenos. Ou seja, de Melissa e Rogério. A primeira conguinha foi ele quem comprou, e ensinou a menina a amarrar os cadarços, assim como o uniforme da pré-escola e o material escolar. A mamãe de Melissa estava ocupada demais com o trabalho para ver estas coisas.

A menina, desde que tinha consciência de si, era doente. Vivia com problemas respiratórios, espirrando, às vezes impossibilitada de ir às aulas por causa desses contratempos nasais. Seu Severino vivia com a menina para cima e para baixo nos médicos da vida. Até Melissa perdeu as contas de quantas vezes teve de ir ver o doutor, tirar raio-x, tomar vacinas, remédios, injeções. E a mamãe não podia faltar no trabalho.

Quando entrou para a primeira série, foi o pai quem a deixou na porta do colégio, com a lancheira à tiracolo. Nas reuniões de pais e mestres, dificilmente seu Severino podia ir pois os turnos não batiam com os horários, mas deixava ordens expressas para que a babá o representasse, já que a mamãe da Melissa não poderia abandonar o trabalho por causa de amenidades de criança. Até mesmo quando Melissa teve problemas de bexiga, por prender demais o xixi com medo de ir ao banheiro durante a madrugada, teve de passar pelo constrangimento de ficar nua na frente do pai, já com 10 anos de idade e portadora de alguns pêlos pubianos. Mamãe não podia. Trabalho...sabe como é.

E assim foi até o dia em que Melissa ficou mocinha de fato. Menstruou e nem tinha a quem pedir um absorvente. A mãe já não tinha útero por conta de um mioma. Teve de ligar e deixar recado com uma funcionária. À noite, a mãe chegou, deixou o pacote sobre a cama dizendo apenas: “está aqui o que você pediu”. Deve ter achado que Melissa já sabia tudo sobre menstruação, ciclo, cólicas, bebês e tudo o mais.

Numa noite, na volta de uma festa de família, Melissa e a mãe desentenderam-se por algum motivo bobo. Chegando em casa a mãe a segurou pelo braço e ordenou que ela dissesse que a ama. Melissa não teve dúvidas, lançou à queima roupa a pérola: “eu não gosto de você”. A mãe começou a surrá-la, ela já com mais de 16 anos, até o pai apartar a briga. Foi como se a criança fizesse a moça vomitar estes recalques acumulados anos a fio. Mas mamães são para serem amadas. Talvez Melissa a ame assim. Ao contrário.



Escrito por Kel às 13:45
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Perfume de Pintanga

Matheus acordou, como diria uma amiga sua, "no pique da Globo" aquela manhã. Seguiu para o trabalho por mais incrível que pareça, no horário certo, sem precisar correr para tomar o metrô. A alma estava em paz, seu humor leve e a aparência conservava o frescor de um jovenzinho, apesar de já contar 33 anos. 

Instalou-se confortavelmente perante seu micro e abriu a caixa de e-mails. Tudo teria sido perfeito não fosse aquela presença feminina. Foi instantâneo: Ieda chegou e com ela aquele inconfundíovel perfume. Ela sentou-se na mesa ao lado de Matheus e o perfume, como quem não quer nada, entrava suavemente em suas narinas. Não fosse este detalhe, o dia dele e todo o resto de sua existência teriam sido ótimo. Mas o perfume continuava ali, se insinuando, se esfregando em seus pulmões, arrancando sua paz, despindo sua calma e deixando-o naquele estado, completamente atônito.

Aquele perfume... Tantas vezes gostava de se deixar levar por ele por caminhos floridos e risonhos. Era sempre a mesma coisa: ela lavava os cabelos com aquele shampoo de pitanga que deixava no ar um aroma bom de felicidade eterna. Por mais que ela dissesse que tinha que trabalhar, ele insistia para que ficasse um pouco mais, enquanto ele se deliciava passando os dedos pelos longos fios negros, deixando que o perfume impregnasse seu dia, sua alma e seu coração com aquele cheiro bom.

Não conseguiu mais se concentrar no trabalho. Que coisa mais infernal! Estava indo tudo tão bem...Mas o cheiro insistia em dizer "estou aqui". Era um velho conhecido seu, de seus tempos de alegria conjugal, de felicidade dividida por dois mas multiplicada milhares de vezes, assim, como flores durante a primavera.

Inventou que estava indisposto e foi embora. Largou a agenda lotada de compromissos porque seu corpo era deste mundo mas a mente já havia uma longa viagem.

Chegou em casa cansado, como se estivesse a correr léguas e léguas. Apresentava olheiras, uma fadiga no olhar e um peso no peito. Deitou-se, tomando antes o cuidado de desligar o telefone, a campainha e tudo o mais que pudesse perturbá-lo.

E assim entrou novamente em contato com aquele mundo tão seu, tão íntimo. Tantas vezes quis fugir destes pensamentos, das lembranças, de tudo que fizesse menção aquele tempo agora tão distante.

Comprou as entradas para o carrossel da memória e sentou-se apressadamente no primeiro cavalinho de detalhes ausentes que encontrou. E no embalo do brinquedo subia lentamente, à bordo dos beijos doados, das noites sussurradas e das danças maliciosas, ao mesmo tempo em que descia, enveredado nos telefonemas brigados, nos atos tresloucados e nas má vontades infantis. Ficou por lá.

De tanto ficar rememorando o passado, ainda envolvo naquele perfume, acabou perdido para todo o sempre naquele mundo de ilusões. Passaram-se apenas alguns meses até sua partida definitiva.

Foi enterrado sem muita cerimônia, fruto do afastamento de todo contato social. As únicas pessoas presentes eram seus pais e dois amigos do trabalho. Mas quem podia notar que estava, bem ao fundo do cemitério, ela em pessoa? Sua última homenagem, por mais que sua consciência dissesse que não, foi feita: levou consigo os cabelos molhados, que espalharam por todo lugar aquele aroma de pitanga. Foi embora sem derrubar nenhuma lágrima. Há amores que petrificam o coração de tal forma, que nem no adeus se deixam atingir.

Escrito por Kel às 19:00
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