Nada com nada

Eu sozinha e você carente.

A gente se encontra e...bem...rolou.

Eu fico com a cabeça rodando e você não dá muita bola.

Nos ligamos.  Nos falamos. Protelamos a conversa.

Eu vou trabalhar cedo. Você dorme até tarde.

A gente se reencontra.

Eu digo o que tá entalado desde aquele encontro.

Você me diz: “Relaxa, amor...a gente só trocou uns beijos”.

Eu fico com a cara na lama. Você volta a ficar carente.

Fim.



Escrito por Kel às 17:57
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São Longuinho, São Longuinho...

A Maria estava, literalmente, num mato sem cachorro. Menina simples do interior, desde que conheceu o José durante uma festa na pequena São Longuinho dos Milagres, a moça não tinha mais cabeça pra nada. Quando ia para roça colher mandioca, perdia tanto tempo divagando nas lembranças de seu amado que dava a hora de voltar para casa e a bichinha ainda não tinha terminado nem a terça parte do trabalho que lhe cabia. Isto rendia à pobre da Maria cada puxão de orelha, tanto do pai quanto da mãe, que deixava as cartilagens em brasa. E acha que ela ligava? Que nada...Estava tão enceguerada pelo tal José que mal sentia os castigos. E assim sucederam-se muitos dias em que a Maria passava todas as suas horas a pensar no José enquanto ele...

O José foi parar em São Longuinho dos Milagres muito a contragosto: empregado das empresas Escapulário´s – que como o nome o próprio nome diz, fabricava e vendia estes símbolos da religião católica – teve de ir até à cidade, famosa pelo povo fervorosamente praticante de tal vertente cristã, preparar o terreno para instalar mais uma filial. Propositalmente, o presidente da Escapulário´s mandou que o José viajasse na época das festividades juninas. Sabia que esta era uma ótima ocasião para que ele fizesse um corpo-a-corpo mais intenso com os futuros consumidores. E lá foi o José. Dois dias depois, como previsto pelo manda-chuvas da empresa, a cidade estava em polvorosa para a festa. Bandeirolas coloridas foram espalhadas pelos postes de iluminação – ainda a gás – da cidade, no coreto da praça, nas lojinhas de secos e molhados. O prefeito, um homem com manias de grandeza, fez uma encomenda de mais de 50 kilos de explosivos, dentre os quais foguetes, espadas de São João, rojões e tudo que pudesse colorir a cidade, o céu e anunciasse aos vizinhos que São Longuinho dos Milagres sabia, como nenhuma outra localidade, fazer uma boa festa de São João.

Caiu a noite e, tanto quem morava no centro do município, quanto quem morava nas roças, saiu de casa e foi comemorar a data do santo. Os homens ajeitaram seus chapéus de palha sobre os cabelos penteados, vestiram as camisas de festa – já bastantes rotas e encardidas pelo suor destilado ao sol -, as calças desbotadas, os sapatos empoirados pela areia, passaram colônia e seguiram de casa até o coreto levando também suas esposas e buguelos. As mulheres não deixaram por menos: botaram os vestidos floridos que sempre ficam guardados para serem usados nos domingos de missa, as sandálias com saltos moderados e batom. Batom era mesmo algo indispensável. Podia faltar passadeira, mas batom...nem pensar.

Todos na praça, bastou a Maria pisar a sandalinha no primeiro paralelepípedo – que delimitada cidade e roça – da praça para que o José botasse os olhos nela. Não se sabe bem como são arquitetadas estas coisas lá no andar superior, mas era como se só existisse a Maria e o José naquele momento. A mãe da Maria logo encontrou uma comadre e foi prosear; o pai foi fumar um cigarro de palha com o seu Agenor da venda e a Maria tratou logo de inventar que queria um binóculo para lembrar todos os dias dali para frente de como o vestido que a madrinha lhe dera caíra bem. Foi a menina encostar no retratista pro José ter a mesma idéia. Enquanto o profissional ajeitava a Maria no cenário montado especialmente para ser fundo do retrato, o José acompanhava tudo com os olhos, sem perder nem sequer uma piscadela da moça. Ela olhava para ele, disfarçava de vergonha, tornava a olhar e ele lá, sem se mexer, como se estivesse colado no chão, com os olhos grudados nela.



Escrito por Kel às 18:25
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Saiu o retrato e saiu também um tímido “oi”, em resposta ao sinal que o José fez com a cabeça para ela. Andava a Maria tão devagar, que o José não só a alcançou para puxar conversa, como também conseguiu contar tudo sobre ele em apenas uma volta ao redor da praça. Ela escutou tudo, não perdeu uma vírgula sequer de toda a história. Dela, o José não tinha muito mais a saber que não fosse o seu ofício na roça, ajudando os pais de idade, já que era filha única e temporã.

Os fogos foram um sucesso; as espadas de São João queimaram muito braço de moleque mas eles nem se importaram tamanha a euforia com os brilhos; os retratistas trabalharam feito mulas e todo mundo ficou feliz. Principalmente o José e a Maria, que passaram algumas horas de papo para o ar, sob os olhares curiosos da mãe da moça. O pai, entretido com as branquinhas e os cigarros, nem percebeu que a menina conversava com um estranho.

José disse que voltaria à capital na tarde do dia seguinte, mas deixou o endereço para que se correspondessem. José teria de voltar à cidade ainda muitas vezes, já que estava encarregado de deixar tudo nos conformes na fábrica nova. Mas até lá, não queria perder o contato e as notícias da Maria. A cidade era tão pequena, que o único telefone disponível era o da prefeitura, que só funcionava durante a semana e em horário comercial. Detalhe: apenas para o prefeito, a secretária, os três vereadores e mais meia dúzia de funcionários públicos.

E foi aí então que a Maria se viu no mato sem cachorro de que falamos. A questão era: como escrever uma carta, contando o que se passava – ou seja, nada – se a coitadinha havia parado na terceira série da escola? Mas era orgulhosa e não admitia, em hipótese alguma, a ajuda de alguém mais letrado. Voltou aos cadernos de caligrafia para recordar como se “desenhavam” as letras. No primeiro dia, ou melhor, na primeira noite, os dedos e as juntas doíam como o cão pela falta de treino. No segundo a coisa melhorou um pouco e como o tempo passava rápido demais, não quis se demorar mais nas lições e pensou num “seja lá o que Deus quiser” e mandou, não uma carta, mas um bilhete, mais ou menos assim:

 

“São Longuinho dos Milagres, 26 de junho de 1980.

 

Querido José,

 

Não tenho muito o que contar porque aqui na cidade não aconteceu nenhuma novidade. Tenho trabalhado bastante na roça. Tenho pensado em você dia e noite. Peço a Deus que lhe traga logo e com saúde. Mãe manda lembrança e pai também.

Volte logo que puder. Estou te esperando. Hoje e sempre.

 

Saudades da sua

 

Maria”

 

O José recebeu a carta dois dias depois, num dia daqueles, em que tinha dado tudo errado. Chegar em casa e encontrar a missiva de Maria foi como um bálsamo para a alma. Ele sabia que a Maria era moça simples, de pouca instrução, mas o bilhete teve o poder fulminante e comovente. E lá foi o José, de novo e em definitivo, para São Longuinho dos Milagres, tomar como tua a Maria e pagar a promessa que fez na noite de São João: acendeu uma vela para o santo da festa e para o santo que dá nome à cidade. E também deu seus três pulinhos...por desencargo de consciência.



Escrito por Kel às 18:25
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Glossário

 

Enceguerada – Cega de amores, apaixonada.

Buguelos – Filhos pequenos.

Passadeira – arco de cabelos, também conhecido como tiara.

Binóculo – espécie de retrato comum em cidades do interior em que um pequeno negativo é acoplado em um compartimento de acrílico. Para ver a imagem, basta mirar o compartimento contra a luz e a lente instalada na extremidade oposta amplia o negativo.



Escrito por Kel às 18:24
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Caixinha de surpresas

Sabe aquela coisa que tá na cara, quase escrita em neon na sua e na de todo mundo, mas que só você teima em não enxergar? Que a sua amiga vê, que os seus pais sabem, que o seu chefe saca, que os vizinhos comentam, que até as pedras da rua estão carecas de perceber e você nem se dá conta? Então, foi exatamente isto que aconteceu com a Silvia.

A danada gostava de falar que era uma maravilha. E falava sobre tudo, mas principalmente sobre a própria vida: o que fez no final de semana, com quem conversou, o que descobriu de bom na cidade... E sempre no meio dessas conversas ela mencionava, basicamente, quatro homens: o pai, o irmão, o ex-namorado e o amigo do Sul. Esse amigo, inclusive, dizia que a vida da Silvia girava em torno destas figuras, não importava o que ela fizesse ou deixasse de fazer. Ela concordava, é claro, e explicava que família era família e por isso o pai e o irmão estariam sempre na roda das conversas, e que tanto ele quanto o ex namorado eram seus melhores amigos do sexo masculino, logo, nada mais natural do que falar sobre eles.

As amigas juravam de pés juntos que ela voltaria a namorar o Ronaldo e ela sempre respondia com um ar de indiferença “imagina...depois de tanto tempo...”. Ninguém conseguia entender porque ela falava daquele jeito, se toda vez que se referia ao ex era de uma forma carinhosa, sem rancores e tão singela.

O Ronaldo e a Silvia, desde o término do namoro, nunca deixaram de se ver e nem de se falar. Era engraçado vê-los no bar bebendo e conversando. Ele perguntava tudo o que ela havia feito, os rapazes que tinha conhecido, o que andava experimentando de novo. Ela não deixava por menos, queria vê-lo bem, dava a maior força para que se firmasse com uma garota que gostasse dele de fato, que pensasse logo em filhos porque afinal ele já tinha 32 anos, que levasse o trabalho a sério...Era uma troca de figurinhas sem o menor intuito de retomar o que já foi, um dia, um grande amor. Aliás, era quase impossível dizer, àquela altura do campeonato, que ambos estiveram juntos e fazendo planos para uma casa em comum e três filhos – com os respectivos nomes de Pedro, Luiza e Antonio.

Um dia desses, a Silvia abriu o jornal e viu que ia rolar um show bacanérrimo de samba rock. Como as amigas não tem o mesmo gosto musical, só restava uma companhia que tinha exatamente o mesmo estilo: o Ronaldo. Convite feito, convite aceito. Foram comprar as entradas num sábado em que a cidade parecia morta por causa do feriado. De lá, repetiram o velho ritual: cerveja gelada com bolinhos de carne do bar do Zé. Depois da comilança, a Silvia, formigona assumida, quis um doce. Como já estavam no bairro onde o rapaz mora, ele a levou a uma padaria que era simplesmente um sonho: doces de todas as formas e qualidades. Decidiram comprar alguns e levá-los para degustar na casa dele vendo um bom filme. Fizeram todo este trajeto como de costume, conversando sobre tudo e todos, com direito a mãos dadas nos trajetos “extra-carro”, e, entre um raciocínio e outro, ele dizia que ela estava bonita, serena, e ela, achava que ele ficava bem de cabelo comprido mas que devia aparar a barba.

Botaram o DVD para rolar, caíram de boca nos doces e pouco depois caíram de boca um no outro. A Silvia não entendeu nada. Um ano e meio depois da separação, sem nunca ter havido uma recaída, nem um sinal de ambas as partes para um “revival”, e de repente estavam ali, no sofá que tanta história tem para contar sobre os dois. Muito abraço, muito beijo na boca, muito cafuné. Ela só não dormiu na casa do Ronaldo porque tinha de ir trabalhar logo cedo e ainda precisava arrumar um montão de coisas. Na verdade a Silvia não quis ir tão depressa com o andor...vai que o santo é de barro? Melhor não arriscar. Até seria bom trocar o óleo – já fazia quase um mês que não aparecia ninguém que valesse a pena para “xananar” – mas seria melhor dormir sozinha e pensar sobre tudo o que aconteceu.

Na porta do prédio, lá vão os dois para o segundo round. Ele ficou encantado com os progressos da moça desde que estiveram juntos da última vez como casal. Ela ainda estava confusa. Mesmo agora, é capaz de a encontrarmos quieta (milagre?), procurando uma resposta para o que aconteceu. É clichê, é antigo pra dedéu, mas a vida realmente é uma caixinha de surpresas. A Silvia que o diga.



Escrito por Kel às 12:42
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