Por inteiro

Sentada em frente ao mar, Julia via as ondas indo e vindo em sua direção. Seu pensamento acompanhava o movimento, trazendo ora resquícios da infância, ora momentos recentes da sua viuvez. Com 72 anos, ela achava que não seria capaz de mais nada sem seu adorado Elias, o companheiro de toda a vida.
O esposo, um militar aposentado, ainda teve forças para lutar contra um câncer no cérebro durante 8 anos. Já quase sem consciência do mundo, cego e escutando muito pouca coisa, sempre que podia reafirmava seu eterno amor à mulher. Julia se manteve firme o quanto pôde, mas ao ver Elias no esquife, deixou desmoronar a fortaleza de aparência que a revestia e se entregou por completo à melancolia. Os filhos, 3 ao todo, moravam na capital, vieram apenas para o enterro e logo voltaram às suas atividades. Já esperavam por este desfecho. Era como se, finalmente, descansassem de toda angústia trazida e espalhada pela doença do patriarca. E Julia se viu só, com seu passado tão vivo, com as memórias ruidosas de 54 anos de um casamento sólido e feliz.
Naquela manhã, como nos dias anteriores, não tomou café, não se penteou, nem trocou de roupa. Apenas escovou os dentes, entornou um copo d´água e passou as mãos, em frente ao espelho, sobre a vasta cabeleira grisalha. Saiu de casa e foi em direção à praia. Desde que se mudaram para o litoral, tanto Elias quanto Julia tinham esta tarefa diária, que desempenhavam com prazer: caminhar nas areias brancas da praia do sossego.
Porém naquela manhã foi diferente. Não teve vontade de andar, apenas de se deixar ficar ali, na areia fofa, olhando para o mar. E este embalava suas doces recordações...
Viu Elias como no dia em que se conheceram, no baile de máscaras de São João da Boa Vista. Depois, relembrou o noivado, o nascimento de Felipe, de Bruno e de Hortência. E quando se deu conta já estava sentada ao lado de Elias, enquanto ele jurava amor para toda a eternidade.
Deu-lhe um beijo na testa, acomodou a cabeça sobre os braços e fechou os olhos...
Quando o amor mora em dois corpos, não é possível sobreviver com apenas a metade.

Escrito por Kel às 08:59
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