Enfim, outro mundo

A Karina nunca tinha ido a uma balada GLS mas morria de vontade. Toda vez que aparecia uma oportunidade para ela finalmente matar as "bichas" da curiosidade, acontecia um imprevisto: ou os amigos mudavam o rumo da balada, ou ela estava sem grana, ou o lugar tinha fechado...Mas quando o Jorge convidou a Karina para o aniversário de um menino da turma, ela previu com clareza sua chance de ouro. O Jorge, seu primo, não era de dar para trás e dessa vez dinheiro não seria o problema.

No dia marcado, o Jorge ligou confirmando a presença da prima e ela, que tinha como política não levar bolo para festa, deu logo um jeito de dispensar o Ari. Não era namorado dela, estavam apenas saindo, mas ele já contava com ela para irem a um barzinho. Não pensou nem duas vezes: pediu ajuda da mãe e inventou uma crise de rinite, disse que precisava apenas descansar e que o melhor a fazer era se verem no dia seguinte porque aí ela estaria 100%. Mais murcho do que buquê de flores de velório, o Ari teve de ir para cama mais cedo...e sozinho.

Chegaram cedo na boate. Jorge, Marisa, Ana, Andresa, Hamilton e, claro, a Karina. Logo na entrada percebeu que era tudo muito diferente de tudo que ela conhecia. Havia tantos rapazes bonitos que parecia surreal. Porém os trejeitos no pulso, a mãozinha nos quadris, o pescoço duro ao falar e o andar desengonçado não negavam: eram todos gays. "Beleza", dizia para o Jorge. Realmente estava adorando estar num lugar daqueles, cheio de gente divertida e bonita. "Imagina se a dona Dete descobre", pensava quanto à mãe. Meninas bonitas não viu tantas e as únicas já estavam acompanhadas.

Na pista de dança se jogou nos ritmos do DJ e teve a idéia de botar em prática uma antiga vontade: beijar dois caras de uma vez só. Pegou o primo - a quem recorria nos momentos de seca -, um dos amigos da turma, montou uma belo sanduíche e beijou, ora o primo, ora o Daniel. Seu corpo, dentro de um micro vestido azul que teve como acompanhante um par de botas de arrasar, parecia tomado por uma febre, sabe-se lá o que era aquilo. Saiu da pista e foi andar sozinha para conhecer melhor todos os cantinhos. Viu um bonitão de camisa aberta, bombadaço, mas teve receio de chegar junto e levar um "eu sou gay" na lata. Mas o cara passou comendo a Karina com os olhos e não deu outra: beijaram-se. Dali, foi para o subterrâneo procurar o resto do povo e achou um outro gostosão. Ficaram quase a noite toda dançando, se beijando e se atiçando. Era a febre de novo.

Era dia claro quando saíram da boate. Uma sensação boa de ter aproveitado bem a grana gasta, mas com um tiquinho de remorso por não ter realizado outro desejo: o de beijar uma menina e um cara. Não seria a primeira vez que beijava uma garota, mas nesta balada teria um contexto todo especial. Ela só não tinha idéia do que dizer para o Daniel quando ele visse aquelas olheiras no dia seguinte.



Escrito por Kel às 13:25
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Papo de ex-namorados

-         E qual é o seu sonho de consumo?

-         É um de quase dois metros de altura, pele clarinha, olhos azuis, uma boca linda e dentes...ah, que dentes. Dava para botar numa moldura!

-         Quase eu, né?

-         Nem...ele não tem barba, nem bigode. Não tem nem cabelo. É carequinha.

-         Ah...Eu também encontrei meu sonho de consumo ontem.

-         Sério? E como era?

-         Custava 70 paus e isso me broxou um pouco...



Escrito por Kel às 17:44
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Amor de almas

Desde que se entendiam por gente andavam juntos e sabiam que podiam contar um com o outro para o que desse e viesse. Quando menor, Marina dizia que iria se casar com o Beto assim que ela terminasse a faculdade de medicina e ele, a de veterinária. Realmente Marina cursou medicina enquanto o Beto...bem, ele teve de adiar os planos porque sempre gastava mais do que o bom senso recomendava com farras e orgias. Aliás, não adiou, simplesmente enterrou o sonho da faculdade sobre escombros de garrafas vazias e embalagens de camisinha.

Os anos se passaram e mesmo com diferenças cada vez mais gritantes continuavam muito amigos. A história do casamento se perdeu no curso do tempo e nas rotinas de adulto que enfrentavam ambos, mas nunca deixaram de se querer bem, de manter contato, mesmo que fosse por telefone ou e-mail.

 

Virava e mexia a Marina ainda se perguntava onde teria ido parar aquele amor todo que ela acalentava pelo Beto quando menina. Ele, sempre cercado de gatas e amigos bêbados, nem se lembrava mais daquilo. Ela se formou, mudou de cidade e ele simplesmente esqueceu a veterinária de vez. No dia da mudança da Marina o Beto acordou tarde, de novo de ressaca, mas teve pique para correr até a casa dela e se despedir. Àquela altura todos os familiares estavam empapados de lágrimas. Beto chegou que nem um vendaval, como sempre, e foi logo abraçar sua melhor amiga. Só então percebeu que sentia saudade dela antes mesmo que ela partisse. Era Marina quem o acordava nos finais de semana para contar coisas novas da faculdade, das amigas festeiras que sempre insistiam para que caísse na gandaia enquanto ela bravamente resistia (tudo em nome dos estudos) e ainda levava o café preto, que a mãe do Beto fazia com tanta mágoa por não ver nascer daquele contato íntimo um casamento que tirasse o filho da vida de perdição.

 

Conversavam horas deitados na cama dele, depois passeavam e tomavam um enorme sundae de chocolate, preferido dos dois, e se despediam. Ela ia para casa estudar e o Beto...ele voltava para as infindáveis orgias.

No dia da despedida, ele abraçou-a tão forte que a Marina teve de pedir que afrouxasse o abraço para não perder o fôlego. Beto jurou que iria visitá-la assim que ela terminasse de se instalar e ela garantiu que ligaria assim que chegasse na casa nova. Desvencilharam-se dos últimos parentes e ele nem se lembrou da loira boazuda que o aguardava no Motel Deliriu's. Só tinha atenções para a angústia de perder a amiga de tantos anos...

 

Marina entrou no carro sem derramar uma lágrima. Beijou pai, mãe, a irmã e afagou o Milu, seu gato. Beto viu tudo, sentiu tudo e então compreendeu que aquela seria a única mulher da sua vida. A única que ficaria quando todas as outras já tinham se vestido e saído correndo para o próximo cafajeste que lhe abanasse as chaves do carro. Uma lágrima escorreu sozinha pela face e secou antes mesmo de chegar ao queixo. Engoliu a dor da despedida e foi para a casa. Repensou em muita coisa mas só pensava na verdade era na Marina.

Dias depois ela ligou. Convidou a todos para a inauguração da residência nova. Neste dia o Beto não bebeu. Aliás, nem sequer saiu de casa. Passou o tempo fingindo procurar uma roupa, mas só pensava nela. Viajou bem, eram apenas duas horas de viagem de uma cidade a outra. Quando a encontrou enlaçaram-se como dois namorados apaixonados. Mas naquela convivência de tantas primaveras ninguém nunca ouviu os apelos desses dois corações desencontrados. E nem agora iriam ouvir. Marina estava tão absorta em trabalho que só pensava nisso. Estava obcecada, como o Beto cansou de dizer. E ele....de novo, ele foi buscar abrigo no mundo proibido das deusas da beleza, do álcool e das noites insólitas até terminar os dias. Sozinho, como ela, inclusive. Viveram suas vidas como Deus quis e, mesmo sem nunca terem se beijado e nem se amado de corpo, amaram-se de alma, como muitos apaixonados jamais o fizeram.



Escrito por Kel às 20:11
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Encontros e Desencontros

Sei que é o nome de um filme, que por sinal não assisti. Mas é também do que é feita a vida. A sua, a minha, e também a da Lu e do Nenê. Quando adolescentes, eles namoraram por cinco longos anos. Era um namoro de novela, cheio de demonstrações de afeto, presentinhos fora de hora, cumplicidades. Mas nem todo o amor do mundo foi capaz de manter a Lu nos eixos quando ela bateu os olhos no Glauco. Naquele instante caiu de amores por ele. Sempre sincera, contou tudo para o Nenê e terminou com ele antes que rolasse uma traição. O Nenê tentou argumentar, disse que a amava mais que tudo, mas não houve maneira de fazer a Lu voltar atrás. Terminaram com lágrimas aquele romance de adolescentes.

 

Tudo que o Nenê tinha de mais, o Glauco tinha de menos. Menos demonstrações de afeto, menos cumplicidade e muito menos ainda presentes sem uma data especial. Era possessivo, não gostava que a Lu saísse com as amigas, quase não conversava com os familiares dela e não a levava para passear. Sempre inventava um filminho a dois, uma pizza em casa e assim, nesta pasmaceira, a relação foi se arrastando. No começo, cega de amores, a Lu nem se deu conta das diferenças entre o Glauco e o Nenê. Mas com quase 3 anos de convivência aquilo já começava a incomodar. E muito.

 

Um dia a Lu resolveu ir buscar o Glauco no trabalho sem avisar e quase morreu de desgosto: o viu saindo aos beijos com uma qualquer que também trabalhava na empresa. Sem deixar que ele a visse, voltou para casa, arrumou os poucos presentes em uma caixa e esperou que ele viesse vê-la. Quando o Glauco chegou ela foi direta: estava tudo terminado. Não disse mais nada. Para tudo que ele perguntava respondia a mesma frase: está tudo terminado. Ele, orgulhoso, foi embora e só voltou a ligar dois dias depois. Ela nunca retornou nenhuma ligação. No fundo, ele não devia mesmo estar esperando uma porque em menos de três meses já estava casado com a Rita.

 

Demorou um bom tempo para a Lu voltar a sorrir e se integrar á turma. Mas era aniversário da Keila e ela não podia faltar. Na festa, reencontrou o Nenê e conversaram muito, na verdade a festa toda. Ele falou dos namoros que nunca davam certo, ela da desilusão com o Glauco e do ressentimento. Chegou até a mencionar arrependimento por ter trocado um rapaz tão íntegro por aquele pulha. E era justamente isto que o Nenê esperava há 3 anos, 2 meses e 6 dias, desde a hora em que ela disse que queria terminar por estar apaixonada por outro.

Em tempo recorde ficou tudo pronto: vestido de noiva, festa, apartamento. No dia do casamento o Nenê mandou entregar uma rosa por hora na casa da Lu e no meio da festa fez uma declaração de deixar até as mais indiferentes babando colorido. Alguém disse um dia que vida é a arte do encontro, embora haja tantos desencontros. Treinar esta arte é a nossa grande missão.



Escrito por Kel às 01:38
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